O carnaval dos debaixo

A noite de domingo de carnaval, na cidade do Rio de Janeiro, foi marcada por mais uma demonstração da força da disposição de luta dos operários e trabalhadores. Essa força se transformou em pressão social e a cúpula dirigente da Escola de samba Paraíso do Tuiuti teve que se dobrar. Nenhum dos cartolas que dirige a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro esperava o que aconteceu.

A garra para enfrentar as reformas neoliberais dos patrões é alimentada pela insatisfação com os sucessivos ataques dos governos, da justiça e do aumento da violência. Isso se expressou na letra do samba enredo que incendiou a Avenida Marquês de Sapucaí.

A comunidade do Morro do Tuiuti veio para frente das câmeras da mídia mundial para afrontar o imperialismo, com suas exigências de redução de direitos. Para enfrentar os patrões, que acham que podem tudo por serem donos do capital. Também veio desacatar o governo e congresso corrupto.

Como nas antigas senzalas a dança, os movimentos do corpo, libertaram o grito dos guerreiros que não aceitam a redução dos poucos direitos trabalhistas conquistados com muito sangue.

Esse grito também é de vingança não só pelos assassinatos cometido pela democracia dos ricos nas comunidades e bairros pobres, mas também pela morte de milhares de índios e negros escravos, no genocídio da Batalha Naval do Tuiuti, na guerra do Paraguai. Nós nunca esqueceremos.

Mas o fato não foi um raio em céu azul. Desde as primeiras horas em que começou o carnaval houve demonstrações de que a classe trabalhadora não vai aguentar o ajuste fiscal que só ataca os mais pobres aprofundando as desigualdades sociais. Mesmo com um forte esquema de repressão e policiamento os blocos independentes invadiram às ruas da cidade maravilhosa. Tal fato evidenciou que os trabalhadores mais precarizados, aqueles que tem os piores trabalhos e salários, se sentiram à vontade para fazer parte da festa. Como exemplo simbólico: um desses blocos ocupou o pátio interno do Aeroporto Santos Dumont. Uma praça interna do aeródromo restrita aos passageiros que foi transformada em salão de grito de carnaval e de manifestação contra o Prefeito Marcelo Crivella e o Presidente Michel Temer.

Essa onda de garra para buscar seu espaço amedrontou o prefeito, que foi para a Europa e o governador, que se escondeu numa pequena cidade do sul fluminense.

Michel Temer, retratado como o vampiro neoliberalista pelo enredo da Tuiuti, se refugiou na distante Restinga da Marambaia, cercado por militares da Marinha. Essas e outras figuras, identificadas como autoridades, sempre apareciam nos caros camarotes do sambódromo ostentando um luxo pago com dinheiro público.

O que assusta essa gente e a elite escravocrata brasileira é que esses sintomas de uma rebelião social não ficam retidos nas fronteiras do estado fluminense. O mesmo fenômeno tomou o país de norte a sul, de leste a oeste. O grito de Fora Temer se ouviu em todos os lugares, inclusive em regiões fora do país.

A forte crise social, política e econômica deu origem ao carnaval mais politizado das duas últimas décadas. E não se trata especificamente de uma escola de samba ou de um ou outro bloco de rua, mas sim de uma legítima indignação que a superestrutura desse país não representa, seja o governo, o legislativo, o judiciário, as empresas de mídia e toda a classe dominante.

O resultado da apuração das notas dos juízes que avaliaram o desfile mostra, de forma distorcida, que a classe está pronta para derrotar os planos de ajuste fiscal do imperialismo e as reformas dos governos. O que falta é o fim da vacilação de todo um setor que dirige os vários movimentos sociais, entre estes, também a cúpula das centrais.

Estas castas burocráticas seguem negando a possibilidade da construção de uma greve geral. Um movimento unificado de toda a classe para potencializar todas as lutas e iniciar a construção de uma saída da classe trabalhadora para crise do capitalismo brasileiro. Não uma saída eleitoreira que escolherá o próximo capataz, mas sim uma que atenda as necessidade e interesses do conjunto da classe trabalhadora e do povo.

O carnaval de 2018 mostrou, mais uma vez, claramente, que é possível derrotar a reforma da previdência e construir um forte dia luta neste 19 de fevereiro. Nos locais de trabalho, de moradia e de estudo segue surdo o grito de insatisfação. Por baixo mora a energia que alimenta a rebelião! E como diz a letra do samba enredo: Não sou escravo de nenhum senhor; Meu Paraíso é meu bastião; Meu Tuiuti, o quilombo da favela que é sentinela da libertação!

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