DE QUEM É A RESPONSABILIDADE DA FILA DE PACIENTES DO INTO?

05set2015saude-publica-atendimento-sus-e-social-01Volta e meia assistimos na mídia reportagens especulativas e maliciosas que não debatem as verdadeiras causas sobre a fila de pacientes à espera por cirurgias do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia – INTO no Rio de Janeiro.

Recentemente e novamente, um dos diretores do Instituto, alegou ser responsabilidade dos grevistas o aumento da fila, mais uma mentira e um pretexto para justificar metas impossíveis de serem atingidas! Segundo dados públicos na imprensa, o histórico do último ano:

19 de agosto de 2014 – 14.077 pacientes na fila.

Final de 2014 – firmado acordo entre o INTO e o Ministério Público que incluiu: metas de produtividade cirúrgica (10.400 cirurgias em 2015 que representa um aumento em 28% na produção de 2014); mutirões; revisão de fila (cerca de 1000 pacientes saíram da mesma, em decorrência de óbitos, tratamentos realizados em outras instituições, etc); mudança na contabilização das cirurgias (por exemplo, uma revisão de prótese passou a ser considerado como dois procedimentos cirúrgicos, o que eleva a produtividade, mas não dá resposta efetiva a fila).

15 de abril de 2015 – 17 mil pacientes na fila.

01 de julho de 2015 – Instituição anuncia ter alcançado 5 mil cirurgias (média de 830 cirurgias/ mês, o que não quer dizer 830 pacientes a menos na fila).

03 de setembro de 2015 – 14 mil pacientes na fila.

Ainda que o período de um mês e meio de greve dos servidores da saúde federal como parte da Campanha Salarial do Funcionalismo Público Federal de 2015 seja responsável pela não realização de cerca de 1000 cirurgias. Essa é uma conta que não fecha!

Por que essa conta não fecha?

É fato, que a demanda de trauma e ortopedia é crescente no país e continuará a ser porque há o envelhecimento da população (mudança do perfil demográfico) e este é o grande público que demanda do INTO.

Outro, e principal elemento, é que o INTO é uma unidade de referência nacional, que recebe pacientes do país inteiro, contudo, num sistema de saúde pública que cada vez mais padece com o financiamento inadequado, a privatização, a escassez de insumos e força de trabalho.

Deste modo, uma unidade de alta complexidade como o INTO vira uma “ilha de excelência” na essência da palavra, ou seja, um complexo que oficialmente custou R$ 195 milhões de reais com 21 salas cirúrgicas, 231 leitos, 40 ambulatórios, reabilitação e etc cercada pelo nada, imerso ao caos.

Tal unidade, não deveria ter suas salas cirúrgicas, leitos, ambulatórios e força de trabalho ocupada com cirurgias de baixa e média complexidade, por exemplo, uma vez que as mesmas deveriam ser realizadas em serviços de atenção secundária e terciária, e somente as mais complexas encaminhadas para o INTO, mas não é isso, que acontece. Hoje, por um acordo, que envolve muita mais politicagem do que SUS (Sistema Único de Saúde) parte dos leitos (102) estão reservados esvaziar os hospitais estaduais, que são gerenciados, ou melhor, privatizados por Organizações Sociais, que recebem2 bilhoes de reais/ano dos cofres públicos por um atendimento a população que não é feito.

Ao invés dos governos (união, estado e municípios) fortalecerem e estruturarem a rede de saúde pública, estes, orientam seus gestores a culparem os trabalhadores da saúde em luta por seu direito a melhores salários pelo caos. Estes, junto aos usuários são as grandes vítimas das mazelas e da corrupção do sistema e pagam a conta dessa situação com sua saúde.

Por um lado, trabalhadores submetidos a salários defasados e ritmos de produtividade fabris, impostos a custo de exploração e assédio moral, o que leva ao adoecimento. Perguntamos houve concurso para o ingresso de novos funcionários a fim de garantir o aumento da produtividade em 28%?

Tal lógica expõe trabalhadores e pacientes também, que além esperar por anos numa fila para terem acesso a um direito (saúde) são sujeitos a possibilidade de cuidados inseguros, e assim, aumentam as taxas de complicações pós-operatória, infecções, reiinternações e etc. Situações que aumentam o sofrimento, o tempo de internação e os custos e, assim, impedem o rodizio de leitos e que outros pacientes sejam operados, ou seja, um ciclo-vicioso sem fim.

Agora fica a pergunta:

Por que números que deveriam diminuir aumentam (o paciente passar da posição 220 para a 227, segundo a reportagem do Bom Dia Brasil) ou ainda, pacientes que com dez anos de fila avançaram em duas posições (segundo reportagem do RJ TV) é algo que só a direção do INTO pode explicar.