Genocídio contra a juventude negra não tem trégua no Rio de Janeiro

No domingo, dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, uma data oficialmente instituída em âmbito nacional mediante a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, sendo considerado feriado em cerca de mil cidades em todo o país. Também feriado nos estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro oficialmente instituído através de decretos estaduais. Pois, exatamente neste dia, a violência do estado, utilizando a desculpa da guerra contra o comércio varejista de drogas, levou o terror à comunidade da Cidade de Deus.

20nov2016setemortosEsta favela, com 38 mil habitantes abriga uma maioria esmagadora de moradores negros descendentes de escravos. Neste dia, neste bairro morreram sete jovens negros. Estes assassinatos com armas de fogo vão engrossar os 163 outros homicídios que ocorrem em todo o país, todos os dias do ano.

A polícia (civil e militar) afirma que as vítimas eram jovens que já tinham antecedentes criminais. Entre estes havia até um com mandado de prisão a ser cumprido. Uma afirmação muito conveniente já que os sete jovens estão mortos. Agora todos foram rotulados de possíveis traficantes, com ou sem culpa.

Helicóptero sem manutenção e com vistoria feita em 2015 cai e mata policiais

Na véspera deste trágico domingo um helicóptero da Polícia Militar que sobrevoava a Cidade de Deus caiu. A queda do helicóptero, do tipo Esquilo, causou a morte de quatro policiais militares: dois oficiais, um suboficial e um praça graduado. Com quase oito dias após o acidente o governo não informa a causa da queda. Pior, o mandado de busca coletiva expedido pela justiça, tinha como objetivo identificar o atirador ou os atiradores que teriam atingido a aeronave e causado sua queda. A decisão judicial que deu poderes aos policiais de entrarem porta adentro nos casebres de uma população negra e pobre não se apoiava em nenhuma informação técnica. Nenhum dos tripulantes nem a aeronave foram atingidos por tiros, de acordo com perícias preliminares.

Os policiais que riem quando matam pobres e negros, choram quando morrem “em serviço”. Porém, desta e de muitas outras vezes, os policiais morreram como consequência exclusiva da política do governo a serviço dos interesses da classe dominante fluminense.

Os números do extermínio de negros

Esta tragédia faz parte das estatísticas que comprovam que homicídios cometidos à bala no país têm classe social, cor, idade e sexo. Se, por um lado, o número de pessoas brancas mortas por arma de fogo caiu 23% entre 2003 e 2012 (de 14,5 mortes por 100.000 habitantes para 11,8), a quantidade de vítimas negras aumentou 14,1% no mesmo período: de 24,9 para 28,5. Apenas em 2012 morreram 2,5 mais negros do que brancos. Os dados são do novo Mapa da Violência 2015, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo.

Estes números comprovam que o Brasil segue sendo o décimo primeiro país onde ocorrem mais homicídios. A polícia brasileira é a que mais mata e morre. A incidência de mortes é maior que o número de cadáveres produzidos pelo genocídio cometido pelo Estado do Israel contra o povo palestino. A falácia da “guerra contra as drogas” cai por terra quando o número de óbitos brasileiros é maior que os do México. Sendo que naquele país há uma declarada guerra entre cartéis rivais do tráfico internacional de drogas.

De 1695 até hoje o racismo matou milhões de negros. Qual a saída?

O estado brasileiro, seguindo as orientações do imperialismo, conseguiu manter e aprofundar a desigualdade social. O domingo, 20 de novembro, ficou marcado porque neste dia, no ano de 1695, foi assassinado Zumbi dos Palmares.

Hoje, como há 321 anos, trata-se de uma desigualdade seletiva. A maioria da população que não tem direito à saúde, educação, empregos, moradia e terra são descendentes dos escravos, de povos originários ou de imigrantes. Em décadas de escravagismo e depois de assalariamento, grupos oligárquicos conseguiram impor a expressão: “bandido bom é bandido morto”.  Esta visão determina o destino deste setor da população desprovida de qualquer condição de vida que não seja a miséria. Essa lógica foi usada nos dias que sucederam aquele domingo para justificar ou explicar as mortes destes sete jovens.

O que os patrões brancos ou negros e seus governos não admitem é que tais mortes, execuções ou não, só ocorrem por uma política deliberada de controle do preço dos narcóticos no comércio varejista. A guerra contra as drogas e as disputas promovidas pelas facções por melhores pontos de venda aumenta o lucro dos fornecedores.

Estes fornecedores não moram na Cidade de Deus ou em qualquer outra favela ou comunidade. São eles que garantem o armamento e o estoque de drogas para ganhar muito dinheiro com a exploração do narcotráfico.

Para acabar com o genocídio é necessário legalizar o comércio de drogas no varejo. Além disso, o estado tem que aumentar o investimento em saúde para cuidar e recuperar os usuários viciados. Mas isso só não basta. Os governos federal, estaduais e municipais devem suspender o pagamento das dívidas interna e externa. Uma forma de desvio de recursos públicos para banqueiros e multinacionais. Só assim haverá recursos para implementar políticas que satisfaçam as necessidades dos trabalhadores e do povo.

Outra medida urgente é a desmilitarização da polícia. A segurança pública não pode ser refém de um estado policial militarizado onde o trabalhador e o morador são caracterizados como suspeitos em potencial. As comunidades, através de conselhos populares, devem ter o controle da segurança pública. Os policiais devem estar submetidos a estes conselhos. Devem gozar do direito de organização, sindicalização e eleição de seus superiores.

Das onze pessoas que morreram naquele fim de semana quatro colocaram suas vidas nas mãos de um estado repressor que ataca os movimentos sociais, as manifestações contra os governos, a população negra e mais pobre para garantir os privilégios dos ricos proprietários. Os sete assassinados na Cidade de Deus, no Dia Nacional da Consciência Negra, no silêncio de suas covas rasas, clamam pelo fim do racismo genocida que ceifou suas vidas. Dão-nos um recado ensurdecedor: é necessário acabar com a atual forma de produção e distribuição da riqueza. O tráfico de drogas, o racismo e a desigualdade social fazem parte da natureza desumana do capitalismo.  Nossa tarefa, enquanto operários, trabalhadores, camponeses e estudantes negros é buscar a unidade de nossa classe social para que sejam cumpridas as nossas tarefas históricas, com a construção de uma sociedade socialista.

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