Espetáculo da Lava Jato esconde a privatização das 29 usinas hidrelétricas

26nov2015privatariaPTNo mínimo há uma coincidência entre a crise do governo e os avanços das investigações da Operação Lava Jato. Esta operação da Polícia federal prospera em sintonia com os índices de queda de popularidade de Dilma Rousseff. Já são 116 presos, 75 condenados, 16 empresas envolvidas, R$ 42 bilhões em desvios e quase R$ 10 bilhões em propinas. No momento o governo Dilma já não tem sequer 9% de aprovação.
O dia 25 de novembro de 2015 também guardar mais uma coincidência. As primeiras horas da manhã o Senador da República Delcídio do Amaral foi preso. De quebra também houve a prisão no Rio de André Esteves. Um banqueiro Chefe Executivo Oficial (CEO) do BTG Pactual, empresa financeira global que atua nos mercados de investimentos. A coincidência é que na mesma data, onde toda a imprensa noticiava estas prisões Dilma realizava, com sucesso e de forma discreta, o maior leilão de venda de ativos públicos dos últimos 17 anos.

Mas as coincidências não param por aí

Delcídio do Amaral possui uma carreira política atípica. Ocupou no início de sua vida pública diretorias em empresas estatais como a Eletrosul e a Petrobras, onde foi diretor entre 2000 e 2001, até trocar o PSDB pelo PT – onde se tornaria senador. Desde então são 12 anos no cargo – onde presidiria a CPI dos Correios, que viria a descobrir o caso do Mensalão.
André Esteves, o outro preso, tem uma trajetória bastante notável. Iniciou como estagiário na corretora Pactual em 1989, para em 10 anos tornar-se um dos sócios controladores da empresa financeira, ao “demitir” seu ex-chefe e fundador do banco. Esteves entrou para o time de grandes banqueiros do mundo ao realizar grandes jogadas, como a venda de seu banco ao UBS-AG, e a posterior recompra, aproveitando-se da crise de 2008. Desde que reassumiu o controle de seu banco, surfou como poucos o período de crescimento da economia brasileira, realizando ao longo de 5 anos operações de fusões e aquisições no valor de R$ 30 bilhões. Foram investimentos tão diversos quanto florestas, lojas de roupas, farmácias, incorporadoras e a maior fornecedora de navios sondas para a Petrobrás, a Sete Brasil. As apostas de Esteves na Petrobrás o levaram até mesmo a outro continente, quando comprou parte das operações da Petrobrás na África.
Em 2010, Esteves se uniu a Lula e Eike Batista em uma empreitada que pretendia fundir a mineradora MMX de Eike com a gigante Vale do Rio Doce, por meio da aquisição da participação do Bradesco. Em 2012, uniu-se novamente a Eike e outro velho conhecido da Operação Lava-Jato, Marcelo Odebrecht, além de Sergio Andrade (fundador da Andrade Gutierrez) e Jorge Gerdau, para formar aquele que seria o time de “empresários conselheiros” de Dilma Rousseff.
A união deste núcleo da burguesia pretendia criar aquilo que a revista Veja chamou de “choque de capitalismo”– o maior programa de privatização a partir da venda de ativos públicos da história: valores superiores a R$ 200 bilhões apenas em infraestrutura, que somados aos US$ 56 bilhões de dólares em vendas de ativos da Petrobrás (anunciados algum tempo depois), tornariam Dilma a presidente que mais vendeu patrimônio público da história.
O Programa de Investimento em Logística, o PIL, como ficou conhecido, tinha a intenção de destravar obras em portos, aeroportos, ferrovias e no setor elétrico. Destes, porém, apenas o setor de aeroportos pode ser considerado um sucesso. Neste setor, o maior caso de venda de ativos deu-se, por coincidência, com a venda das operações do aeroporto do Galeão. A compradora destas operações foi a Odebrecht, empreiteira na qual Marcelo era presidente (até junho deste ano, quando foi preso pela operação Lava-Jato). A Odebrecht comprometeu-se a pagar R$ 20,5 bilhões em um prazo de 30 anos.
O retumbante fracasso do PIL nas demais áreas é apontado por técnicos e economistas do governo como uma das prováveis causas de a economia brasileira ter patinado durante os anos seguintes. Sem conseguir realizar os investimentos em infraestrutura que beneficiaria ainda mais o agronegócio, ou dariam “competitividade” às exportações brasileiras de produtos industrializados, e incapaz de sustentar-se apenas com o foco no consumo interno, a economia brasileira entrou em recessão.
Não por acaso, ao assumir a missão de tirar o governo do atoleiro em que se encontra, os ministros Nelson Barbosa e Joaquim Levy viram na retomada do programa de venda de ativos e concessões uma saída para fechar as contas. Politicamente travados em questões como a abertura de capital da Caixa Econômica, a venda de imóveis e concessões em portos e hidrelétricas se tornou o principal alvo do governo.

Privataria Petista

Ajudados pelas espetaculares prisões da polícia federal, que serviram de cortina de fumaça, as privatizações das 29 usinas ocorreram. Foram R$ 17 bilhões, dos quais R$ 11 bilhões pagos à vista e com a promessa de R$ 6,5 bilhões em até 6 meses.
No dia 24 investidores chineses compraram 27% das ações da Azul Linhas Áreas, os mesmos investidores protagonizaram também o leilão de hidrelétricas.
Só para não esquecer os Chineses também haviam comprado partes do pré-sal em um leilão realizado em 2014. Naquela oportunidade, porém, os leilões geraram grandes manifestações que permanecem na memória do movimento popular. Desta vez não houve notícias, nem antes, nem depois.
Segundo o sítio eletrônico do governo, Portal Brasil, Todas as 29 usinas hidrelétricas foram privatizadas através de leilão realizado, nesta quarta-feira (25), pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A maior venda de ativos públicos desde o leilão da Telebrás, em julho de 1998, ocorreu graças a mais uma traição do PT. A luta contra as privatizações durante o governo do PSDB, de FHC, defendeu que Furnas, uma das maiores geradoras do país, continuasse pública. Poucas foram as usinas privatizadas na época. Ocorre que, a exemplo de hoje, os contratos firmados entre 1998 e 2000 também possuíam prazos, de 15 anos. Após este período, tais usinas retornariam à posse do governo, que então licitaria as usinas novamente, a exemplo do que fez nesta quarta-feira.
Mas estas ações do PT não são mais nenhuma novidade. Este partido governa para os patrões contra os trabalhadores, o povo e a soberania. A novidade é que setores do movimento popular e a maioria da direção do PSOL ainda tente encontrar argumentos para se colocar a favor deste governo e de uma pretensa governabilidade.
Esta entrega de patrimônio público e de riquezas naturais mostra que o PT, o PMDB, o PSDB e demais partidos da velha direita tem um acordo no atacado, embora tenham diferenças no varejo. Nenhum deles são uma alternativa que garanta os direitos e interesses dos trabalhadores. Por isso, mais que nunca está na ordem do dia a construção de uma greve geral que crie as condições objetivas do surgimento de uma alternativa de nossa classe.

Com informações de Spotniks