Disputas na Casa Grande leva a prisão de um dos maiores mafiosos do setor de transportes coletivos

Por: Cyro Garcia*

No Estado do Rio de Janeiro, seis famílias controlam os serviços de transporte coletivo. Uma destas famílias é a dos Barata. Esta família é proprietária de dezenas de empresas de ônibus, sobreviveu durante décadas a sucessivas mudanças de governo e até de regimes constitucionais. Nunca importou quem era o governador ou prefeito de turno, a única certeza sempre foi a de que o fundador do Grupo Guanabara, Jacob Barata, hoje com 85 anos, continuaria controlando o setor de transporte público do Rio. Este domínio, que já dura mais de 50 anos, lhe rendeu o apelido de “Rei dos Ônibus”. Até que uma disputa entre os poderosos expôs o mafioso. O veículo utilizado na disputa de aumento de lucros foi à chamada Operação Lava Jato. Esta atingiu em cheio parte da elite política fluminense – seu símbolo maior, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB). Cabral está preso e a polícia federal ameaça agora o império da família Barata. No domingo (02/07), Jacob Barata Filho, que assumira o lugar do patriarca à frente dos negócios, foi preso enquanto tentava embarcar para Lisboa.
A prisão de Barata Filho antecipou a operação “Ponto Final”, que a partir de 13 de julho, decretou a prisão de 12 pessoas da cúpula de transportes do Rio, entre elas Lélis Teixeira, presidente da poderosa Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), e Rogério Onofre, ex-presidente do Departamento de Transportes Rodoviários do Rio (Detro).

A mais antiga máfia do transporte é responsável pela tarifa mais cara do país 

A quadrilha de mafiosos, disfarçada de cartel, pretende aumentar a tarifa de ônibus desde o mês de março. No entanto a disputa pelo poder no seio da elite fluminense arrasta até hoje uma luta judicial nos tribunais que ainda não tem data para terminar. O fato é que o último reajuste, ainda na administração do Prefeito Eduardo Paes se justificava como parte do processo de climatização da frota de ônibus urbanos na cidade carioca. Um novo prefeito já tomou posse e a grande maioria dos ônibus não possui o tão desejado e prometidos condicionadores de ar. Mesmo assim o “cartel” pretende novo reajuste na tarifa.

Não dá para confiar na polícia federal

O conglomerado da família Barata, um dos maiores do Brasil e dominante na Fetranspor, é peça fundamental desse esquema de pagamento de propinas aos governantes e parlamentares, segundo o Ministério Público. Ainda que opere em vários estados brasileiros, sua musculatura sempre se concentrou no Rio. Foi aqui, em 1950, que tudo começou. Barata pai tinha 18 anos quando comprou um Chevrolet de 10 lugares e passou a fazer a linha Madureira-Irajá. Era o tempo das lotações, o equivalente aos atuais serviços de vans que, naquela época, significaram uma transição dos bondes elétricos para os atuais ônibus: um transporte mais caro e poluidor. Porém o MP ou a Polícia Federal nada dizem da ligação de Barata com o “jogo do Bicho” ou com o financiamento de grupos de milícia.
O atual Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, Ministro Gilmar Mendes sempre foi ligado à família Barata. Quem não lembra que em julho de 2013, Gilmar foi o padrinho de casamento da neta de Jacob. Além do ministro, o casamento de Beatriz Barata contou também com a presença do Senador da República, Sr. Tasso Jereissati (PSDB/CE).
Esta relação entre empresários e políticos mostra claramente o caráter do Estado no capitalismo. Mostra que há uma relação intrínseca entre os exploradores de mais valia e os administradores do estado. Com o acirramento na disputa entre as frações da elite dominante estas relações de corruptos e corruptores podem aparecer.
Como de outras vezes há uma grande possibilidade do esquema criminoso mais antigo do Rio ser abafado e empurrado para debaixo do tapete.

Pelo fim da “máfia de ônibus”

Jacob Barata Filho e as demais famílias que controlam os transportes coletivos mantêm um esquema de exploração e opressão que deve ter um fim. Não é só a implantação da dupla função onde o motorista substitui o cobrador. Este trabalhador tem que conduzir o veículo e ainda cobrar as passagens. Mas, além disso, este esquema criminoso e imoral atinge a população de baixa renda demonstrando de forma clara que este serviço não pode ser uma mercadoria. A garantia da mobilidade urbana deve ser um direito dos trabalhadores e do povo.
Os escândalos envolvendo a família Barata, o ex-governador Cabral e o esquema de propinas e corrupção nas relações entre empresários, empreiteiros, banqueiros, multinacionais e os governantes mostra todo o malefício da privatização dos transportes coletivos.
Os trabalhadores, através de suas entidades e movimentos, devem exigir dos Governos de Michel Temer, de Luiz Fernando Pezão e de Marcelo Crivella a imediata desapropriação dos meios de transporte coletivo, sem indenização ao cartel mafioso. Esta medida deve garantir também a reintegração dos 28 mil cobradores demitidos, para por fim a dupla função. Também deve recuperar as dezenas de linhas que foram extintas para satisfazer a ganância do cartel mafioso.
Com a estatização deste serviço é possível garantir uma redução das tarifas, a gratuidade para desempregados, alunos, idosos e deficientes físicos. Estas medidas devem ser rumo ao caminho dos transportes coletivos serem efetivamente público, gratuito para todos os usuários e de qualidade. Seu financiamento deve ser provido pela cobrança de impostos, taxas e contribuições da arrecadação estadual e municipais.


(*) Cyro Garcia – Bancário e professor, esteve à frente do Sindicato dos Bancários do RJ no período de 1985 a 1991, quando a categoria obteve suas maiores conquistas. Foi fundador e membro da executiva da CUT, rompendo com essa central assim que a mesma abandonou os interesses dos trabalhadores. Desde então, dedica-se à construção da CSP-Conlutas como alternativa à CUT governista.

 

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